A PRAXIS DA REINVENÇÃO

Janeiro, 2018

Apesar das sucessivas e recentes descidas do desemprego, todos temos a noção de que a melhoria dos indicadores oficiais resultou mais da criação de postos de trabalho nos setores do turismo e da construção civil, do que um “aggiornamento” do mercado de trabalho à boleia de uma cultura “web summit”.

Numa fase em que as tecnologias e a globalização estão a gerar mudanças sem precedentes, Portugal apenas poderá reinventar-se se as forças políticas, as empresas, os sindicatos e os trabalhadores se unirem em torno de um projeto de sustentabilidade social.

Só um investimento massivo e prioritário em programas ativos de formação, abertos a trabalhadores de todas as idades, poderá responder ao tsunami da inteligência artificial que, nas próximas décadas, vai fazer desaparecer metade dos atuais postos de trabalho.

Não será possível resolver a conflitualidade laboral se não se acreditar num modelo de flexibilidade social, na qual a manutenção do emprego terá que ser mais importante que a segurança do posto de trabalho. A mudança do “fixed mindset” para um novo “growth mindset” da sociedade, só será viável se o Estado for capaz de implementar politicas mais eficazes de apoio ao emprego, os sindicatos modificarem a estratégia da luta pelo trabalho e os empregadores aceitarem agravamentos significativos de custos do emprego, em troca da flexibilidade laboral.

A Holanda e a Dinamarca estão a fazer a prova do algodão com um contrato social, baseado em três princípios, que conjuga a flexibilidade do emprego com a segurança do trabalho: a flexcurity.

   a) Mercado de trabalho altamente flexível que permite aos empregadores ajustarem em tempo real, a força de trabalho aos objetivos de negócios;
   b) Subsídios de emprego elevados que permitam ao trabalhador conjugar, com dignidade, períodos de desemprego e atualização profissional;
   c) Politicas ativas de formação, ao longo da vida, que co-responsabilizem os trabalhadores na definição da sua carreira e na aprendizagem de skills adaptados às novas exigências da economia digital.

Em Singapura, qualquer cidadão com mais de vinte e cinco anos, recebe um voucher anual de cerca de quatrocentos dólares, que pode acumular ou usar em centenas de instituições credenciadas como formadoras.

Nenhuma empresa ou governo poderá renovar a estabilidade de emprego de há cinquenta anos, mas podem compensar a flexibilidade do emprego com oportunidades de formação permanente, ao longo da vida. A única segurança que o mundo digital nos vai conceder.

Amândio da Fonseca
Fundador e CEO da EGOR

*in Jornal Expresso, 20 de janeiro de 2018

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