Março, 2018

Há cerca de cem anos o respeitado pai das teorias keynesianas previa que, em 2030, o salário básico universal e a semana de 15 horas semanais seriam uma realidade nas sociedades modernas, como consequência da inevitável prosperidade das nações.

Apesar de experiências como o rendimento familiar do lulismo e outros ensaios piloto de erradicação da pobreza se terem revelado positivas e viáveis nalguns países, o salário básico universal continua a ser encarado como uma quimera. Mas por quanto tempo mais?

A génese das grandes mudanças sociais foi estudada pelo cientista americano Joseph Overton. "A janela de Overton" defende que, na nossa era, as grandes mudanças se concretizam, em poucas décadas, através de processos de aquisição social de uma ideia que, lançada por um demagogo, começa por ser considerada uma quimera ou loucura, perigosa e impossível de concretizar, mas que a certa altura se revela possível e mais tarde absolutamente necessária.

Há poucas décadas o casamento entre pessoas do mesmo sexo era absolutamente impensável. Subitamente algumas pessoas "abriram a janela" lançaram a ideia no exterior e atreveram-se a divulgá-la publicamente. Inicialmente foram considerados loucos e imorais. No entanto, ao longo do tempo, a ideia foi ganhando adeptos e tornou-se, nas sociedades democráticas, um ícone legislativo da liberdade humana.

Joseph Overton teorizou o processo através do qual ideias que hoje consideramos utópicas e irrealistas se tornam uma realidade quando encontram profetas que antecipam, antes de outras pessoas, esse fenómeno da mudança que Pessoa celebrizou ao referir-se à Coca-Cola "primeiro estranha-se mas depois entranha-se".

Pular para fora da zona de conforto, tornou-se vulgar numa sociedade em que a influência dos media na mudança da opinião publica é exponencial. A semana das 15 horas de trabalho, o fim da pobreza, a generalização do salário básico universal que Keynes profetizou como a inevitável consequência duma sociedade afluente é defendida, de forma cada vez mais abrangente, por um conjunto de visionários que se atrevem a defender ideias impensáveis e afrontar o ridículo, a descrença e as ameaças das sociedades e se recusam a fazer compromissos. São idealistas que nos convidam a vencer as barreiras da utopia e saltar para o futuro.

Sobretudo porque estamos no limiar de uma época na qual, como alguém já disse, sabemos que os robôs serão capazes da fazer tudo o que fazemos, mas não sabemos ainda o que faremos depois.

Amândio da Fonseca
Fundador e CEO da EGOR

*in Jornal Expresso, 10 de março de 2018

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