Agosto de 2019

Em 2014, Barack Obama, então Presidente dos Estados Unidos da América, disse a propósito do Sargento Bowe Bergdahl - que foi feito prisioneiro pelos Talibans durante mais de cinco anos - que o seu país não deixava os seus homens ou mulheres de uniforme para trás. Frase forte que desencadeou a salvação de um ser humano. Por outro lado, não foi novidade uma vez que esta prática, muito enfatizada sobretudo pelos fuzileiros, é uma prática milenar.

A história está recheada de tentativas bem e malsucedidas de recuperação de colegas de armas que ficam para trás em conflitos mais ou menos complicados e que tornam as decisões de recuperação ainda mais difíceis dadas as vidas humanas que normalmente são colocadas em risco. Mas o que é que isto tem a ver com a Leadership Summit Portugal, com o lema “Are we going together?” e com o mote de quem está a ficar para trás no mercado de trabalho e o que podemos fazer? Eu diria tudo, pois estamos numa fase onde a velha máxima que nenhum homem fica para trás (nemo resideo) se aplica na perfeição ao mercado de trabalho em Portugal. Vivemos dias interessantes, desafiantes e que exigem o melhor de cada pessoa que tem ou que venha a ter responsabilidades que impactem o ecossistema do mercado de trabalho. Portugal não é exceção à regra e está inserido num muitíssimo competitivo mercado mundial que está severamente afetado pelas crises migratórias, pela crise de valores, pelas crises ambientais e aqui mais perto, na Europa, por acontecimentos como o Brexit e pela acentuada escassez de talento. Esta realidade é tanto pior à medida que os anos forem avançando e a população ativa em Portugal cair vertiginosamente a par da população total. Assim, o que é que pode e deve ser feito para minimizar estes efeitos e garantir que as empresas, os trabalhadores e a economia conseguem manter-se dinâmicos, ágeis e com o nível de competitividade e produtividade certos? A curto prazo é preciso desenhar e implementar um plano de ação estratégico que ultrapasse governos, partidos e ideologias políticas com o intuito de definir as prioridades educativas, curriculares e que crie pontes ágeis entre as necessidades dos empregadores e a oferta formativa. É urgente começar a estimular o desenvolvimento das soft-skills o mais cedo possível pois serão essas as competências que darão a capacidade aos trabalhadores de amanhã para se reinventarem, para proactivamente continuarem a procurar mais formação e para que, no limite, se consigam adequar ao mercado de trabalho do futuro.

Nunca a professora Lynda Gratton esteve tão certa quando diz que iremos viver até aos 100 anos e consequentemente trabalhar mais 10, 15 ou 20 anos do que trabalhamos atualmente. O que inevitavelmente vai obrigar cada um de nós e as nossas empresas a adequarem-se a esta realidade financeira, formativa, ao equilíbrio trabalho-família entre outros conceitos e competências que ainda estão longe de estar interiorizados. Para que ninguém fique para trás é importante que, tal como o último relatório do Fórum Económico Mundial refere, cada nação consiga desenvolver e potenciar o talento de cada pessoa permitindo assim que cada indivíduo alcance todo o seu potencial, o que se irá refletir em economias e sociedades mais prósperas.

Afonso Carvalho

CEO do Grupo EGOR

*in Revista Líder, 1 de agosto de 2019

 

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