Novembro de 2019

Numa altura em que a sobrevivência da espécie humana e do planeta onde habitamos se tornou uma ameaça mais presente no (in)consciente coletivo da humanidade, a maioria das pessoas e das instituições, acantonou-se na comodidade politicamente correta de esperar para ver e continua a acalentar a secreta esperança de que talvez o diabo não seja tão mau como o pintam. A inundação de zonas costeiras, a morte da vida no mar, a exaustão dos recursos alimentares, a desertificação dos campos agrícolas, a escassez da água ou a poluição do ar que respiramos, tendem a ser encaradas como perigos e ameaças, cujas soluções dependem de consensos a que somos alheios.

Algo semelhante ao que está a acontecer perante a emergência da mais poderosa revolução de sempre. Tudo indica que a quarta revolução industrial se poderá tornar um tsunami, cujos efeitos irão alterar, profundamente, a sociedade em que vivemos. O desenvolvimento tecnológico vai condicionar a forma como vivemos e o futuro do trabalho. Embora a 4RI seja hoje, em todo o mundo, a coqueluche de artigos, best sellers, dissertações, pesquisas universitárias e congressos e em Portugal se discuta, com alguma displicência, a desaparição anunciada de um milhão de postos de trabalho, ninguém cuida de saber quando, como, nem onde vão nascer os novos postos de trabalho, propalados pelos otimistas de serviço. As escolas e as universidades continuam a ensinar e a formar alunos para profissões e carreiras em risco de obsolescência ou extinção, mas ninguém aborda as consequências de um cataclismo social com centenas de milhares de sobreviventes que irão ser lançados no desemprego, por incapacidade de se adaptarem e responderem às exigências da nova ordem digital.

Na era da automação, espera-nos uma sociedade onde a capacidade de adaptação e resiliência serão condicionadas por dois fatores: o estado de saúde da economia e as novas tecnologias. Sabemos que as prioridades do consumo vão exigir novos produtos, novos serviços, novos modelos de negócio e novas mentalidades, mas ainda não descobrimos como preparar o país para, de forma socialmente sustentável, começar a desenhar sistemas de aprendizagem, criar instituições preparadas para incubar os skills emergentes que as pessoas necessitam para responder ao que irá acontecer e que constituem um imperativo cuja responsabilidade recai, não apenas sobre os incumbentes políticos, o sistema de educação e as empresas, mas também, queiramos ou não, sobre cada um de nós.

Amândio da Fonseca

Chairman e Fundador do Grupo EGOR

* in Jornal Expresso

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