Fevereiro 2020

Afonso Carvalho | Diário as Beiras no suplemento “A região de Coimbra tem futuro 2020”

No início do próximo trimestre deverá ser publicado o relatório anual da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) referente ao Futuro do Trabalho. Este relatório é uma das principais referências nacionais e mundiais, no que diz respeito ao presente e ao futuro do trabalho, uma vez que agrega dados transversais e multiculturais de uma realidade que é que cada vez mais imprevisível, instável e consequentemente complexa. Pensar o futuro do trabalho nos dias que correm torna-se assim um exercício extenuante e que pode facilmente cair numa espiral de dúvidas, ilusões e desvios.

O relatório de 2019 tem trezentas e nove páginas carregadas de informações preciosas e que, dependendo do nosso objetivo, devem ser cirurgicamente escrutinadas para dele conseguirmos retirar ideias, iniciativas ou ações concretas para as funções ou missões que possamos ter nas nossas empresas, associações, governos ou simplesmente enquanto cidadãos interessados e participativos. Se cruzarmos todos os relatórios que estão disponíveis e que têm por base o estudo do futuro do trabalho, em todos eles encontramos um denominador comum e que felizmente, por moda ou necessidade, começa cada vez mais a ser discutido ou implementado em várias fases do percurso educativo, formativo e laboral. Nomeadamente, como é que trabalhamos competências chave hoje não sabendo o que serão os empregos do futuro, como é que ajudamos os trabalhadores mais ou menos seniores a prepararem-se para uma reforma cada vez mais longínqua e como é que mentalizamos os trabalhadores para a necessidade da formação contínua e promovida pelos próprios. Todas estas dimensões são críticas para que um profissional, esteja em que setor de atividade estiver, esteja em que estádio de desenvolvimento, estiver se consiga manter ativo e preponderante para a sua ou para qualquer outra organização onde venha a desempenhar funções.

O principal desafio dos dias de hoje começa muito cedo e quanto mais cedo começar a preparação para o mundo do trabalho, maior a probabilidade de sucesso, pelo que é imperativo que exista uma política única, transversal e disruptiva de âmbito educativo permitindo a todos os envolvidos, sobretudo para os alunos, participarem numa viagem que seja atual e que lhes permita estarem preparados para este novo mundo do trabalho. O sistema educativo Português está, na grande maioria dos casos, desadequado e a precisar urgentemente de uma ação concertada e corajosa que permita uma disrupção sem precedentes introduzindo novos modelos educativos, novas metodologias de avaliação da aprendizagem, mais espaço para o trabalho colaborativo e para o trabalho autónomo e mais espaço para desenvolver o sentido crítico e a curiosidade. Quanto mais cedo testarmos, desenvolvermos e alinharmos estas competências nas crianças, melhor as estaremos a preparar para o mundo do trabalho que terão de enfrentar. Modelos pouco ou nada flexíveis, obsoletos e que não promovam as competências do futuro, comprometem o futuro profissional das crianças de hoje. A outro nível, é importante que os profissionais no ativo ganhem urgentemente a consciência que o fim de uma carreira profissional está cada vez mais longe e que longevidade é sinónimo de investimento pessoal, de proatividade formativa e de um plano de ação. Plano este que deve contemplar uma análise financeira a longo prazo, uma vez que terão que ser capazes de suportar uma carreira durante muitos mais anos, deverá também incluir um plano que permita uma preparação física e mental para esta nova fase da vida e a continuação de um plano de desenvolvimento de competências e conhecimentos.

Resumindo, os profissionais de hoje têm inevitavelmente de pensar numa forma de se manterem ativos, proativos, constantemente relevantes e atuais. Portugal tem de pensar nos mais pequenitos, nas crianças, nos jovens, nos adultos, nos mais seniores e sobretudo no futuro do trabalho e nas implicações profundas que estão a acontecer a uma velocidade vertiginosa e que obrigam a mudanças igualmente velozes e pensadas a longo prazo. Todos merecem, sobretudo os pequenitos.

Afonso Carvalho

CEO do Grupo EGOR

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