2 de março 2020

Amândio da Fonseca | Caderno de Economia do Expresso 

Warren Beatty, irmão de Shirley MacLaine, protagonizou nos anos 70 um filme de sucesso baseado na história de Joe Pendleton, um atleta de elite a quem, a sequência de um grave acidente, o anjo da guarda tinha prematuramente antecipado a entrada no céu. A história começa quando Joe é forçado a voltar à Terra para completar o seu ciclo de vida e encetar nova carreira. Sem o final fabricado dos sucessos de Hollywood, a metáfora pode servir, com alguma dose de imaginação, para abordar o tema candente do adiamento da idade da reforma com a qual se deparam atualmente três gerações: os que estão a entrar no mercado de trabalho, os que rondam os 40 anos e aqueles para quem se aproxima a idade de reforma.

No passado mês de janeiro algumas centenas de milhares de manifestantes invadiram as avenidas de Paris e outras grandes cidades francesas para protestar contra a proposta do Governo de atualização do sistema de reformas. O projeto de lei previa a alteração da idade de reforma dos franceses dos 62 para os 64 anos e a transformação dos atuais 42 diferentes regimes de pensões num sistema único e por pontos. Os manifestantes saquearam lojas e bancos, imobilizaram Paris, queimaram automóveis e autocarros. O Governo de Macron foi força a adiar para abril a alteração da lei das reformas e a fazer concessões que, por continuarem a privilegiar determinadas profissões, reduziram praticamente o projeto de lei ao ponto de partida.

O caso francês constitui um exemplo típico das dificuldades das sociedades desenvolvidas para ajustar os sistemas tradicionais de proteção das gerações mais idosas ao alargamento da longevidade humana. Nos últimos 150 anos a expectativa de vida humana tem vindo a aumentar dois a três anos em cada década. Nas economias mais desenvolvidas, uma pessoa nascida em 2007 tem uma significativa probabilidade de viver até aos 100 anos e trabalhar até aos 80. O alargamento da vida ativa até aos 70 anos é já uma realidade em vários países e o futuro aponta para que o atual modelo trifásico de educação, trabalho e reforma a tempo inteiro seja substituído por modelos multifásicos de carreira.

A questão da longevidade tem merecido pouca atenção, mas vai obrigar as organizações a adotar modelos mais flexíveis de recrutamento, retenção, formação, retribuição e reforma num processo complexo e eivado de sentimentos de ansiedade, frustrações e conflitos geracionais que não serão fáceis de resolver.

 

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