Da utopia à ubiquidade

Dezembro de 2021

Amândio da Fonseca, Chairman e Fundador do Grupo EGOR 

Em 2004 a Tesco, uma grande cadeia americana da distribuição, resolveu usar os critérios que o marketing da empresa utilizava para segmentar o perfil dos consumidores aos próprios trabalhadores. Os resultados dos questionários revelaram um conjunto fragmentado de aspirações que surpreendeu os executivos da Companhia. Embora a progressão profissional fosse a principal motivação para a maioria dos inquiridos, para muitos outros, o companheirismo era o fator de satisfação mais importante. No entanto um número inusitado de trabalhadores aspirava horários que lhe permitissem passar mais tempo com a família.

 No decorrer dos anos, mesmo depois de as tecnologias de informação terem começado a vulgarizar as comunicações virtuais, a sua operacionalização continuava sujeita ao controlo hierárquico nas organizações. Embora o sentimento de que o trabalho presencil limitava a conciliação da vida pessoal com a carreira profissional, eram raras as organizações que ensaiavam o trabalho virtual.  Na prática, a generalização do trabalho remoto era uma utopia reservada a uma elite de empreendedores, early adopters tecnológicos e especialistas de comunicações.

O maremoto COVID transformou radicalmente o universo do “quero e posso” das organizações e transferiu definitivamente o futuro do trabalho para uma realidade onde a adoção do trabalho flexível passou a focar -se mais nas circunstâncias da epidemia e nas aspirações humanas, do que nos interesses institucionais.

Ao libertar o trabalho presencial das barreiras de tempo e do espaço, a digitalização permitiu tornar realidade o sonho humano de estar, simultaneamente, em qualquer local e transformou definitivamente a utopia do trabalho remoto numa realidade ao alcance de toda a gente.

Para além de uma conquista imediata, o trabalho híbrido vai modelar no futuro a decisão coletiva de consumir menos, partilhar mais, conseguir melhor qualidade de vida e maior justiça social.

Muitos anos depois os sonhos dos trabalhadores da TESCO tornaram-se realidade.

*“A capacidade de estar presente, ao mesmo tempo, em todo o lado” Priberam

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